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Água que nos Transborda
Por Igor Olszowski
Hoje, vejo nas lágrimas, no suor e nos fluidos que atravessam o corpo uma continuação dos corpos d’água da Terra. A água que corre no rio, se dissolve no mar, sobe em vapor, transborda em chuva ou maré é a mesma que nos habita. Não há separação. A Natureza não está fora: ela nos constitui.
Talvez essa jornada tenha começado antes mesmo de eu saber nomeá-la. Em 2023, sobrevoando a Ilha do Japonês, em Cabo Frio, alguma coisa começou a se mover dentro de mim. Do alto, a ilha surgia não apenas como território cercado por água, mas como uma presença demarcada por ela. Ao seu redor, linhas de profundidade, bancos de areia, zonas rasas e canais mais escuros desenhavam fronteiras móveis. O verde da vegetação, o branco da areia e as diferentes transparências da água compunham uma imagem quase pictórica.
O drone me permitia assistir a um recorte que meus olhos, desde o chão, jamais poderiam alcançar. Havia linhas, manchas, passagens de cor, mudanças sutis entre o fundo visível e a profundidade. Era como se a própria água desenhasse a territorialidade da ilha, contornando-a e, ao mesmo tempo, modificando continuamente aquilo que parecia ser seu limite.
Naquele momento eu ainda não compreendia o que estava procurando. Mas aquela imagem começou a mexer dentro do meu peito, como algo que me atravessasse. A fotografia aérea deixava de ser apenas uma forma de registrar paisagens. Havia ali uma comunicação que eu ainda não sabia traduzir.
A nitidez dessa percepção só chegaria dois anos depois.
Água que nos Transborda nasceu como uma espécie de revelação em Piracanga, Bahia, em 2025. Ali, no encontro com Juliana Faber, do Instituto Somos Água, compreendi com mais profundidade aquilo que aquelas primeiras imagens já pareciam tentar me dizer: a água é presença viva, inteligência em fluxo, matéria que pede relação, escuta, cuidado e reverência.
Foi nesse chão — literalmente com os pés na água e o controle do drone nas mãos — que muito do sentido deste trabalho se revelou. Com o coração guiando cada etapa, fui testemunhando fluxos contínuos que se manifestam em diferentes cores, densidades, texturas e ritmos. Do alto, o que parecia apenas paisagem começava a revelar outras formas: rios como veias, mangues como organismos, encontros de águas como membranas, células, úteros.
Porque a água não é apenas límpida e inodora. Há águas vermelhas, verdes, turvas, transparentes, densas, brilhantes, barrentas, calmas, violentas, úmidas de sombra ou incendiadas de luz. São todas águas. E todas elas nos ajudam a visualizar a própria impermanência: tudo está em estado de passagem.
Muitas das paisagens aqui fotografadas já não existem da mesma maneira. Entradas de rios mudaram de forma, margens foram refeitas, correntes avançaram, estruturas desapareceram. O quadro Escada para o Céu guarda a memória de um lugar onde eu costumava me conectar, com os pés n’água, para mirar o céu. A correnteza avançou terra adentro, remodelando lentamente o cenário. Permanece a fotografia como uma pintura de outrora — testemunho de algo que existiu daquela forma apenas por um instante.
Foi também a partir dessa compreensão que Búzios se integrou à mostra. A transparência de suas águas, somada aos pigmentos minerais e às texturas da Praia do Forno, trouxe uma nova camada de dramaticidade e plasticidade ao trabalho. Ali, entre pedras, areia, profundidade e maré, a água parece pintar a própria paisagem, revelando a beleza daquilo que nunca termina de ser.
Mais recentemente, nos Lençóis Maranhenses, esse pensamento encontrou outra forma. Entre dunas que se deslocam com o vento e lagoas que nascem das chuvas, enchem, mudam de cor e desaparecem, a impermanência torna-se quase palpável. Vista do alto, a água surge entre a areia como células, olhos, membranas e ilhas provisórias. Cada lagoa é um acontecimento temporário: um encontro entre chuva, vento, areia, luz e tempo.
A Ilha do Japonês foi o primeiro chamado. Piracanga trouxe a compreensão. Búzios revelou a força mineral e cromática da água. Os Lençóis Maranhenses, sua capacidade de aparecer, desaparecer e retornar.
Territórios diferentes, atravessados pela mesma matéria.
O trânsito desses corpos fluidos é mais do que paisagem. Pode ser útero, plasma, sangue, lágrima, mar. A primeira imagem que, em Piracanga, consolidou o sentido desta pesquisa recebeu o nome de A Placenta: o encontro do rio com o oceano me apareceu como um espaço de gestação, passagem e nascimento. Como se a paisagem exterior revelasse algo que também existe dentro do corpo.
As imagens desta exposição são impressas em canvas, aproximando fotografia e pintura. A textura da tela dá corpo às manchas, aos sedimentos e às transparências, enquanto a fotografia continua pelas laterais do chassi, como se recusasse terminar dentro da moldura.
Ela transborda.
E existe aí uma contradição que me interessa: fotografar é tentar guardar aquilo que, por natureza, não pode ser retido. O instante permanece na imagem. A água continua seu caminho.
Este trabalho é, portanto, um exercício de testemunho. Uma tentativa de dar forma à voz da impermanência. De honrar aquilo de que somos feitos.
Olhar para fora é também olhar para dentro.
Cuidar da água é cuidar de nós.
Porque também nós somos água.
E talvez reconhecer isso seja uma das maneiras mais profundas de lembrar que tudo vive em fluxo.
AGRADECIMENTOS
Neste fluxo de gratidão, dedico este trabalho, antes de tudo, à minha filha Margot, por me incentivar a fotografar e por me ensinar, todos os dias, a enxergar a beleza com mais presença, curiosidade e delicadeza.
Ao meu pai, Anatolio Olszowski, que sempre deu asas às minhas ideias mais ousadas. À minha mãe, Marlene Miranda, que me criou em meio à natureza e me ensinou que qualquer pedaço de terra pode florescer. À minha amiga-irmã Vavá, pelo afeto e pela presença. À minha amiga Dani, por abrir caminhos para a prática do Yoga e por incentivar tantos dos meus cliques.
Ao meu irmão Erico, à Michelle e aos meus sobrinhos, pelo amor e pela torcida de sempre. Ao amigo Rob Darwin, pelas andanças e voos de drone pelos céus. Ao Marlo, pela amizade, pela presença e por todo o apoio na construção do vídeo e deste universo de imagens.
À Ecovila Piracanga, pelo acolhimento e pelas vivências tão transformadoras, e a todos os amigos que encontrei naquele caminho. À Juliana, mãe da Margot, por compartilharmos a dádiva de acompanhar essa menina lindamente curiosa crescer. À Miriam, Gil, Sergio e Marcela, por estarem sempre presentes.
Ao meu shala, Kali Yoga, e especialmente à Juliana, por ser um desses grandes presentes de amizade que a vida oferece.
À Gisele, minha Brigitte de Piracanga, que acreditou neste projeto desde o início e ajudou a torná-lo possível. Ao coletivo Música do Círculo, por acolher uma experiência tão especial e abrir espaço para que algumas destas fotografias pudessem nascer.
Ao Palácio das Águias e a toda a sua equipe, por acreditarem neste trabalho e tornarem possível esta exposição em Cabo Frio.
E a todos que, de alguma forma, atravessaram, tocaram ou ajudaram a mover este processo, meu mais profundo agradecimento.
Como a água, nenhum caminho se faz sozinho.
SOBRE O ARTISTA
Igor Olszowski — voo, água e imagem
Jornalista, produtor audiovisual, fotógrafo e artista visual nascido em Petrópolis (RJ), Igor Olszowski formou-se em Cinema em Lisboa e na Université Paris 8, na França. De volta ao Brasil, fundou a Camelô Produções, através da qual trabalha há mais de duas décadas com emissoras, produtoras e plataformas internacionais como Discovery, HBO, National Geographic, ARTE e France Télévisions, entre outras.
Seu trabalho como produtor o levou a atravessar o Brasil em busca de personagens, histórias e locações: florestas, rios, manguezais, praias, cidades, comunidades e estradas improváveis. É nesse deslocamento constante, entre logística e narrativa, que seu olhar fotográfico também foi sendo construído.
Nas expedições por esse “Brazilsão”, o drone deixou de ser inicialmente uma ferramenta de reconhecimento de locações para se tornar instrumento profissional de filmagem e, posteriormente, extensão de seu próprio olhar.
Do alto, Igor passou a observar geometrias que não se revelam do chão: curvas de rios, desenhos de mangues, bancos de areia, mudanças de profundidade, encontros entre águas e praias que se reinventam a cada maré.
A partir de 2023, essas imagens começaram a constituir uma pesquisa autoral sobre os corpos d’água, suas cores, movimentos e impermanências, que mais tarde se desdobraria em Água que nos Transborda.
Após temporadas em Boipeba, na Bahia, e no Rio de Janeiro, Igor estabeleceu sua base em Cabo Frio, na Região dos Lagos. A convivência cotidiana com o mar, os ventos, as marés e as constantes variações de cor aprofundou sua escuta para a água — elemento que hoje atravessa de maneira central sua produção artística.
Além do audiovisual, colaborou como jornalista e fotógrafo para veículos como Folha de S.Paulo, Playboy, Viagem e Turismo, Elle e Vida Simples, entre outros, escrevendo e fotografando sobretudo sobre viagem, gastronomia e cultura.
Suas fotografias nascem desse mesmo impulso: encontrar, no visível, aquilo que normalmente passa despercebido — e captar as entrelinhas do fluxo.
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igor.olszowski
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Witnessing water, flow & impermanence
Fixer in Brazil @cameloprod
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